Neurodivergência: compreenda o conceito para promover uma educação significativa

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O que a sua mãe, a Agência de Inteligência Britânica e a polícia da cidade de Hague, na Holanda, têm em comum? Todos vão dizer que “você não é todo mundo!”. E isso é simplesmente maravilhoso.

Mal sabia sua mãe que ela já estava apresentando você a uma realidade do mundo. Somos seres originais, singulares, com um cérebro tão único e personalizado quanto nossas digitais e nossa pupila. Entender esse fato pode ser fácil. Difícil é olhar para cada estudante e desconstruir as noções de um déficit, de uma falta ou limitação sempre que nos deparamos com um laudo de TDAH, TEA ou dislexia. É exatamente nesse ponto que a neurodivergência nos dá suporte para promover uma educação significativa.

Mas o que significa ser neurodivergente?

Ser neurodivergente significa que o seu padrão de funcionamento cerebral e de comportamento é atípico em relação ao conjunto da população humana. Em outras palavras, seu desenvolvimento neurológico é destoante quando comparado com aqueles considerados neurotípicos.

Debaixo do grande guarda-chuva da neurodivergência, nós vamos encontrar cérebros com TDAH, TOC, TEA, discalculia, dislexia, síndrome de Down, entre outros. Isso quer dizer que grande parte da população do mundo é neurodivergente em algum ponto. Por isso é tão importante que os educadores evitem medidas que proponham encaixar as crianças em idade escolar na caixinha do “todo mundo”.

Em que isso interfere no atual cenário da educação inclusiva?

Tudo muda! A compreensão da neurodivergência demanda uma mudança no nosso foco, no nosso olhar. A neurodivergência nos propõe analisarmos muito além dos déficits e das limitações – até então, palavras favoritas de laudos e estudos. Ela pede que passemos a enxergar as crianças e jovens que recebem esses laudos pelo que elas realmente são: pessoas com um desenvolvimento cerebral diferente do meu e do das outras crianças da escola e ao seu redor.
Foi o que fez a Polícia de Hague, na Holanda, em 2017. Eles decidiram contratar somente pessoas com diagnóstico de autismo para analisar as filmagens de câmeras de segurança, buscando identificar suspeitos ou evidências durante as investigações. Pessoas autistas normalmente têm uma habilidade excepcional de concentração e atenção aos detalhes, o que faz com que analisem tais vídeos com mais precisão e muito mais rapidamente. A Polícia de Hague ganhou um prêmio – Cedris Appreciation Award – por esse trabalho extraordinário de reconhecer as habilidades ímpares de pessoas autistas.

A Agência de Inteligência Britânica também fez um trabalho parecido ao contratar pessoas com dislexia por serem extremamente criativas, intuitivas e excelentes em resolver problemas tridimensionais. Até 2014, eles já haviam empregado mais de 100 espiões com dislexia.

Neurodiversidade: a mudança de paradigma na escola

Quando voltamos a atenção para as potencialidades que a criança – laudada ou não – apresenta, temos a possibilidade de observar e perceber como podemos interagir melhor com ela, como ela pode adquirir conhecimento e como ela pode ser avaliada pela ótica da equidade. Assim, deixamos de classificar os estudantes com os típicos itens limitadores – como “não consegue / não é capaz de” – e partimos do pressuposto de que há caminhos diferentes pelos quais essas crianças alcançam o aprendizado. Como exemplo: se um estudante apresenta dificuldades com a escrita na língua adicional, podemos sugerir formas de ele apresentar o conhecimento adquirido de modo oral, por meio de desenhos ou qualquer outra representação gráfica. Outro exemplo: se a criança dá indícios de grande dificuldade com a leitura, pode-se abusar da criatividade e das habilidades artísticas para que ela tenha a oportunidade de desenvolver a compreensão e expressar seus conhecimentos.

Buscar os assuntos de interesse dos estudantes neurodiversos e usar isso para entender seus diferentes universos é uma das maneiras mais efetivas de compreender suas potencialidades e habilidades.

A neurodivergência aponta uma mudança de foco na busca por uma cura para normatizar e apreciar a diversidade. Além disso, o movimento da neurodivergência busca os direitos civis, o respeito e o reconhecimento – o que seria o mínimo da inclusão social.

Mudanças de paradigmas como esses reforçam a ideia de escola como um espaço rico para trazer famílias, estudantes, educadores e colaboradores a fim de repensarem coletivamente a educação de maneira holística. Em outras palavras, a escola é um espaço para rever conceitos e, consequentemente, possibilitar processos profundos de mudança.

O futuro exige mentes diversas, e elas desabrocham na escola

Ao darmos mais atenção às necessidades do mundo contemporâneo, a lista de exigências para os novos profissionais e para as mudanças tecnológicas não para de se desdobrar. Fica muito evidente que mentes neurodiversas serão cada vez mais importantes.

Vale lembrar grandes nomes da história, como Henry Ford e Thomas Edison – mentes tão diferentes e brilhantes. Nas particularidades do jeito de pensar, eles se tornaram ícones neurodiversos, pois tinham TDAH. Quando lemos os incríveis livros de Agatha Christie, lembramos de suas obras impecáveis, mas nos esquecemos (e muitos nem sabiam) que essa genialidade toda veio de um cérebro também neurodiverso, já que ela tinha dislexia.

E você, educador? Já tinha ouvido falar do paradigma da neurodiversidade?
Como você vê esse paradigma em sua sala de aula?

REFERÊNCIAS

https://superautor.com.br/neurodiversidade-qual-a-importancia-de-estimular-na-escola/

http://www.editoraopet.com.br/blog/neurodiversidade-na-educacao-como-trabalhar-com-os-diferentes-tipos-de-padroes-cerebrais/

https://askearn.org/page/neurodiversity-in-the-workplace

https://www.forbes.com/sites/forbeshumanresourcescouncil/2022/02/15/neurodiversity-and-the-workplace/?sh=152cb0c02a22

https://www.betterup.com/blog/neurodiversity-in-the-workplace

https://embrace-autism.com/the-neurodiversity-paradigm/

Pelicano, E., Houting, J., Annual Research Review: Shifting from ‘normal science’ to neurodiversity in autism science. Journal of Child Psychology and Psychiatry 63:4 (2022), pp 381-396

Ballou, E.P (2018). What the neurodiversity movement does and doesn’t offer. Thinking Person’s Guide to Austism. Available from: http://www.thinkingautismguide.com/2018/02/what-neurodiversity-movement-doesand.html. Accessed october 2022

Milena Mignossi

Milena Mignossi

Formada em Letras - Licenciatura Plena em Português/Inglês. Pós-graduada em Planejamento Educacional e Docência do Superior. Mestre em Linguística Aplicada ao Ensino de Língua Inglesa, pós-graduanda em Neurociência e Educação. Certificação TESOL. Mais de 20 anos de experiência em sala de aula e também em docência, coordenação e formação de educadores em centros de idiomas e escolas regulares, da Educação Infantil ao Ensino Médio.
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