Minha escola será bilíngue. E agora?

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Descubra as vantagens de se oferecer mais de um idioma na instrução de componentes da matriz curricular da educação básica.

Então chegou a novidade em sua comunidade escolar: agora a sua escola será bilíngue. É provável que você, educador do Ensino Fundamental, esteja receoso quanto a isso. Você não conhece muito sobre outros idiomas e gostaria de ter mais informações sobre esse processo.

Sabemos que toda mudança traz à tona alguns desconfortos e a chegada de um novo modelo de educação em sua instituição não poderia ser diferente. Como todo profissional dedicado, você já sabe que novos processos implicarão em novas rotinas, as quais talvez você ainda não tenha assimilado e das quais você precisará se assimilar para explicar aos familiares e estudantes que atende. Afinal, há mesmo benefícios em se introduzir uma outra língua na dinâmica da sala de aula?

Estudos recentes ligados às neurociências comprovam que de fato o cérebro bilíngue se desenvolve de maneira diferente do monolíngue e que essas modificações que acontecem em nível de desenvolvimento cerebral refletem em uma melhor performance cognitiva do indivíduo como um todo. Isso se dá, principalmente, em função da neuroplasticidade cerebral, isto é, a capacidade de nosso cérebro mudar os caminhos de comunicação entre os neurônios, estabelecendo novas sinapses através dos diversos estímulos e conexões. Ora, uma vez que a criança passa a receber novos incentivos e aprende a estar e fazer relação com o mundo através de uma outra forma de se expressar e interagir, aquele cérebro está ampliando suas possibilidades e estabelecendo uma maior maleabilidade cerebral

Muito embora possa-se acreditar que toda essa quantidade de novas informações seja prejudicial ao desenvolvimento dos sujeitos, pesquisas apontam que, na verdade, essa ampliação de repertório linguístico e cultural que o contexto bilíngue traz permite que os cérebros bilíngues tenham suas funções executivas mais desenvolvidas. Chamamos de funções executivas as habilidades cognitivas que permitem ao ser humano controlar e regular pensamentos, emoções e ações em situações de conflito ou frente a distrações. Adele Diamond (2013) classifica essas funções em três principais habilidades: o controle inibitório (autocontrole), a memória de trabalho (estabelecimento de vínculos e resolução de ações) e a flexibilidade cognitiva (adaptabilidade). A literatura científica nos confirma que sujeitos bilíngues mudam de tarefas mais facilmente, possuem maior retenção de memória e tomada de decisão mais rápida e eficaz (BIALYSTOK, 2009).

Percebe-se, daí, que essas são competências essenciais para a vida social e escolar, ou seja, a introdução da educação bilíngue trará como benefícios não apenas a aquisição de uma nova língua, mas também o desenvolvimento de competências e habilidades cognitivas que serão de grande valia para os estudantes em todas as áreas de sua vida, refletindo inclusive em sua performance acadêmica. Uma criança que, porventura, sob estresse, venha a ter dificuldade em performar suas funções executivas pode facilmente ser confundida com alguém que sofra de déficit de atenção e hiperatividade, quando na verdade não sofre (DIAMOND, 2013). Isso sem falar na prevenção de doenças neurológicas: há comprovadamente uma vantagem cognitiva relativa ao atraso da demência em sujeitos bilíngues quando comparados aos monolíngues (BIALYSTOK et al, 2007; CRAIK et al, 2010; LUK et al, 2011)

Talvez agora você possa estar se perguntando: eu já entendi que há vantagens cognitivas no desenvolvimento cerebral. Mas, na prática, pensando em meus estudantes dos Anos Iniciais, será que a introdução de uma língua adicional neste momento não poderá confundi-los e atrapalhar o processo de consolidação da alfabetização em língua portuguesa? Ou ainda, para o grupo de crianças mais velhas e pré-adolescentes: eles já estão mais maduros e ouvi dizer que para ser bilíngue é preciso se apresentar o novo idioma o mais cedo possível. Será que não seria melhor começar a educação bilíngue para quem está cursando a educação infantil? Bom, estes são o que chamamos em neurociências de neuromitos, isto é, fake news. Vamos analisar cada um deles para entender porque se tratam de inverdades.

Diferente do que senso comum acredita, a introdução de uma outra língua será benéfica para a criança mesmo durante a fase de alfabetização, ainda mais quando se tratam de dois idiomas que compartilham do mesmo sistema alfabético como é o caso da língua inglesa e o português. Muito embora a relação grafema-fonema nem sempre seja a mesma para os dois conjuntos de códigos, a criança consegue estabelecer similaridades e contrastes que ampliam suas possibilidades de compreensão e favorecem os processos de alfabetização e letramento (BEEMAN & UROW, 2013). 

Já em relação à faixa etária da introdução da língua adicional, não existe uma idade mais adequada para iniciar esse aprendizado. Ainda que seja notório que na fase inicial da infância a criança esteja mais suscetível e aberta a aprender – as chamadas janelas de aprendizagem – o cérebro humano nunca perde a sua capacidade de se modificar e estabelecer novas conexões.  A neuroplasticidade permite que possamos desenvolver novas habilidades e adquirir conhecimentos durante toda nossa existência, mesmo quando mais velhos, na fase adulta ou velhice. A educação bilíngue será uma grande aliada na formação integral dos nossos estudantes, como podemos perceber. A implantação de um modelo educacional como esse amplia não apenas o repertório linguístico e cultural desses sujeitos, mas também traz inegáveis ganhos para seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Tenha certeza que a nova fase de sua escola trará inúmeros benefícios para a comunidade escolar como um todo. A equipe Be – Bilingual Education está disponível para auxiliá-los nessa adaptação à nova rotina.

Que possamos propiciar oportunidades de aprendizagem significativas e valorizar os avanços espontâneos que cada estudante dá no seu processo de aquisição e que, dessa forma, possam tornar-se naturalmente bilíngues.

Referências:

BEEMAN, K. and UROW, C. Teaching for Biliteracy: Strengthening Bridges between Languages. Philadelphia, PA: Caslon Publishing, 2013.

BIALYSTOK, Ellen; CRAIK, Fergus; FREEDMAN Morris. Bilingualism as a protection against the onset of symptoms of dementia. Neuropsychologia, v. 45, p. 459–464, 2007

BIALYSTOK, E. Bilingualism: The good, the bad, and the indifferent. Bilingualism: Language and Cognition. v. 12, n. 1, 2009.

CRAIK FIM, BIALYSTOK E., FREEDMAN M. Delaying the onset of Alzheimer disease: bilingualism as a form of cognitive reserve. Neurology 75 1726–1729. 2010.

DIAMOND, Adele. Executive Functions. Annu. Rev. Psychol. 64:135-168. 2013.

LUK G., BIALYSTOK E., CRAIK FIM, GRADY CL. Lifelong bilingualism maintains white matter integrity in older adults. J. Neurosci. 31 16808–16813. 2011.

Thais Alencar

Thais Alencar

Graduada em Letras e pós-graduada em Ensino de Inglês pela Universidade Federal de Minas Gerais. Pós-graduanda em Metodologias e Práticas para Educação Bi/Multilíngue no Instituto Singularidades. Possui certificações CPE, TKT Full, TKT KAL, TKT Young Learners e CELTA. Examinadora oral de Cambridge. Possui 20 anos de experiência como professora e produtora de materiais didáticos em escolas da educação básica e institutos de língua estrangeira. Teacher Trainer. Assessora sênior em seu terceiro ano de atuação no Time Be.
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