Alfabetização e bilinguismo: o que a neurociência tem a nos ensinar

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Com o crescimento de instituições bilíngues, discussões sobre o processo de alfabetização na Educação Bilíngue tornaram-se de extrema importância para as famílias no momento de tomar a decisão sobre qual escola vão matricular seus filhos.

Se, em um primeiro momento, a grande maioria concorda que existem muitos benefícios para as crianças quando inseridas ainda em tenra idade em um contexto escolar bilíngue, as preocupações começam a escalar quando os estudantes chegam à etapa da alfabetização.

Algumas famílias podem se perguntar: “Será que eles vão confundir as duas línguas? O aprendizado de uma não atrapalha a outra?” Para refletir sobre essas e outras questões, eu convido você  a ler este artigo para entender melhor a respeito dos processos que acontecem no cérebro da criança e como o bilinguismo se relaciona com o processo de alfabetização.

 

Alguns benefícios do cérebro bilíngue

Em entrevista à BBC, o neuropsicólogo Jubin Abutalebi, da Universidade de San Raffaele, na Itália, afirma que o cérebro dos seres bilíngues desenvolve mais massa cinzenta em uma região associada à aquisição de vocabulário. Como o cérebro de uma pessoa bilíngue é constantemente desafiado, na hora de definir qual idioma utilizar, a depender da situação, as funções do córtex pré-frontal dorsolateral são mais estimuladas. Isso quer dizer que, ao fazer esse exercício, os bilíngues estão estimulando a parte do cérebro que desempenha funções executivas, resolve problemas, fortalece a concentração, alterna tarefas e filtra informações irrelevantes.

Outro aspecto interessante é o enriquecimento de perspectivas. Também à BBC, o professor Panos Athanasopoulos, da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, afirma que pode ser comum que pessoas bilíngues se sintam diferentes ao falar outro idioma, o que pode ser explicado pela lógica que cada idioma exige. Uma pessoa pode pensar em uma comida favorita se perguntada em inglês e em outra se perguntada em francês.

Além disso, a psicolinguista Ellen Bialystok, da Universidade York, no Canadá, descobriu, em suas pesquisas, que indivíduos bilíngues com tendência a ter Alzheimer demoraram 4 a 5 anos a mais para apresentar os sintomas em relação aos que falavam apenas um idioma. Como os seres bilíngues apresentam, em geral, mais massa cinzenta, além de padrões neurais alternativos, eles podem conseguir retardar o processo de demência.

 

Alfabetização e letramento de crianças bilíngues

Para compreender os processos de alfabetização em contextos escolares bilíngue, é importante primeiro compreender claramente a diferença entre alfabetização e letramento. De forma breve, o letramento é um processo contínuo, no qual o sujeito se apropria dos  usos  e  funções  sociais  de  uma  língua. Já a alfabetização refere-se ao aprendizado do código escrito, ou seja, codificar e decodificar para ler e escrever.

O letramento, como dito anteriormente, é um processo contínuo de apropriação das  funcionalidades e usos sociais de diversos gêneros e áreas do conhecimento. Por isso, ele acontece em todos os ambientes que a criança frequenta e em todas as línguas com as quais ela tem contato.

Geralmente, o processo de alfabetização começa na língua de nascimento dos estudantes. Depois que os conhecimentos forem se consolidando, os estudantes começarão a utilizar as habilidades na língua adicional. De acordo com Nobre e Hodges (2010), o bilinguismo pode ser um aliado na aquisição da alfabetização.

Para Bialystok e colaboradores (2005), a primeira vantagem do bilinguismo é  ajudar a criança a desenvolver uma compreensão geral da leitura e suas bases  em um sistema de escrita simbólico.  Isso quer dizer que o bilíngue tende a compreender mais rapidamente que o monolíngue como o sistema escrito funciona e como fazer sentido na decodificação da linguagem. Não menos   importante, a outra contribuição do bilinguismo ressaltada pelos autores é o  potencial de transferência dos princípios de leitura de um sistema para  outro, ou  seja, as estratégias que a criança desenvolve em uma língua podem ser transferidas para a outra. 

As habilidades desenvolvidas na língua de nascimento serão utilizadas pelas crianças como recursos e referências na leitura e na escrita em língua adicional. Ainda de acordo com Nobre e Hodges (2010), crianças bilíngues apresentam funções executivas diferenciadas e ganhos na consciência metalinguística de forma mais precoce do  que os monolíngues. Esses são aspectos importantes, pois estão diretamente  relacionados à facilitação do processo de alfabetização. Além disso, há ganhos de ordem social que se aplicam ao letramento, visto que a exposição a uma vivência  bilíngue envolve imersões culturais que favorecem o acesso a diferentes formas e usos de linguagem, bem como a sua apropriação.

A exposição das crianças, ainda antes da alfabetização, a outra língua pode trazer benefícios não só para o desenvolvimento neurológico, mas também para o processo de alfabetização. 

Nas escolas com o Currículo Be, desenvolvemos o letramento desde os primeiros anos de escolarização das crianças. Além de apresentarmos variados estilos de vida existentes em outras partes do mundo, promovemos inúmeras oportunidades aos estudantes, com intencionalidade e planejamento pedagógico, para conhecerem e entenderem os pensamentos e os diferentes modos de representar o mundo. De acordo com a faixa etária  e os estágios do desenvolvimento infantil, as aulas introduzem aspectos linguísticos pertinentes e contextualizados para a realidade das crianças brasileiras. E, por respeitar a pedagogia, o desenvolvimento infantil e o desenvolvimento do cérebro bilíngue, contribuímos com o processo de alfabetização existente em cada escola. O trabalho com os desdobramentos da leitura e da escrita em inglês ocorre no tempo adequado para cada turma, de acordo com o alinhamento entre os assessores pedagógicos do Be – Bilingual Education e todos os profissionais da escola.

REFERÊNCIAS

NOBRE. A.P.M.C.; HODGES. L.V.S.D (2010) A relação bilinguismo–cognição no processo de alfabetização e letramento. Ciências & Cognição. Disponível em: http://cienciasecognicao.org/revista/index.php/cec/article/view/386/242 Acesso em 15/11/2022
VINCE. Gaia (2016)The amazing benefits of being bilingual.  Disponível em: https://www.bbc.com/future/article/20160811-the-amazing-benefits-of-being-bilingual?utm_source=blog&utm_campaign=rc_blogpost Acesso em 15/11/2022

Renata Assunção

Renata Assunção

Coordenadora pedagógica de Implantação e Contas no Be - Bilingual Education. Graduada em Pedagogia pela UFMG e pós-graduada em Educação Bi/Multilíngue pelo Instituto Singularidades e em Educação pela Universidade de Winnipeg. Mais de 10 anos de experiência profissional como educadora e coordenadora pedagógica em escolas de educação básica e institutos de língua inglesa.
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